notas avulsas #04
leituras e palavras
uma das resoluções para 2026 era escrever mais. mas nada vem à cabeça - não como é o esperado aqui do substack, num tom meio cordial, meio “eu tenho algo a te ensinar, eu tenho uma switch para mudar seu mindset” ou até memo em tom de revelação pessoal. daí que o jeito vai ser pra usar como umas notas aleatórias até algo se consolidar na minha cabeça. enfim, só escrever e exercitar o hábito.
não me interessa mais a discussão sobre AI. é uma bolha sim e pode ser que isso exploda e muita gente se lasque, pode ser que a economia absorva isso e nada aconteça. pode ser e pode ser mas também pode não ser. as pessoas que me lêem, e com quem interajo, já tem sua opinião sobre AI e arte bem formadas, algumas das vezes alinhadas com as minhas próprias. discutir se o que é produzido por prompt é arte ou não é irrelevante. o Duchamp estourou essa porta. essas mesmas pessoas me importam porque, em um momento ou outro, compartilharam algo que me interessou e que eu gostei de conhecer. por exemplo o comediante e ex-tuiteiro G. Alves que me apresentou Milo/R.A.P. F.E.R.R.E.I.R.A, o que me levou até Kurt Vonnegut. e depois a mesma fera me introduziu ao plex, onde hoje faço o controle dos filmes que pirateio pra poder ver. so it goes. a curadoria sendo também arte pra potencializar a cena. and so on and so on.
recentemente tive a experiência de trabalhar com uma pessoa que só conseguia operar e existir através das mensagens do gemini. comunicado para a equipe? gemini redige. precisa pensar num sistema de gamificação? gemini pensa, estrutura, codifica e manda pro lovable. colega de trabalho tem uma dúvida e precisa de uma posição? manda o gemini redigir, copia e cola - sem tirar os travessões e os “. longe de mim pensar que sou bom em me comunicar, mas chega certo ponto que as coisas se tornam tão críticas que é difícil pensar se tratar de um ser humano. também sou muito contrário à ideia de instrumentalizar e externar seu cérebro e suas mões. é importante preservá-los no interior do corpo, como uma parte de você, ou uma extensão.
e é por isso que não me importa viver pra além dos 80-85 anos. uma vez que o corpo começar a falhar e a sucumbir, não interessa o quão afiada a mente esteja: meu destino é morrer. que eu assim o faça. como diz aquela frase: não se pode viver com dignidade, mas dá pra morrer com ela. e eu gostaria de preservar a minha. o corpo tendo deteriorado, a mente tendo sido convertida em data center, chega o momento da minh’alma voar: é ali que alcançarei, momentaneamente, a eternidade. enquanto estiver na lembrança e na memória das pessoas que me conheceram seguirei vivo. até que o último suspiro do último sujeito desse grupo seja dado. ai sim deixarei de ser realidade, de ser uma vida. estou satisfeito com isso. essa é a dignidade que busco preservar. o resto é tbt.
no ano passado eu assisti a mais filmes do que imagino ser saudável, então pra esse ano a ideia era trocar um pouco do tempo de tela por uns livros, umas fotografias aqui e ali, uns escritos.
eu tinha planejado corrigir uma falha formativa de leituras clássicas e épicas, como Ilíada, Odisséia, Irmãos Karamazov, Gilgamesh (lido na faculdade de História, mas queria reler), Graça Infinita (a bíblia do século XXI). e ai descobri que a Glutenberg Bible, especialista em literatura gótica, ia começar uma leitura acompanhada de Paradise Lost, dividida ao longo de todos os meses desse ano. comprei o livro, mas não li a primeira parte ainda. quando o calhamaço chegou me perguntei porque me coloquei nessa situação, mas, vida que segue. devo tomar partido dessa jornada até fim do mês.
daí que embora não tenha começado a ler a queda de Luci, eu li outras coisas:
- takemitzu zamurai vol 2 / taiyo matsumoto
- japanese death poems / yoel hoffmann
- places, strange and quiet / win wenders
- pulp / bukowski
- homens ao sol / ghassan kanafani
- são bernardo / graciliano ramos
takemitzu zamurai
gostoso demais imagens bem feitas de samurais. li Vagabond duas vezes, no que virou uma prática anual. mas queria experimentar algo novo e, por acaso, abri a amazon e tinha esse mangá safado sendo anunciado como lançamento (no momento, dois volumes estão disponíveis, com o terceiro previsto para dia 31 de março; são oito no total). a estória é simples: um samurai de olhos de raposa chega a uma pequena vila, vindo da cidade grande, e faz moradia numa casinha simples em aluguel. o primeiro volume trata da reação da população à chegada desse estranho. ele parece fugir de algo, o que fica claro ser o instinto assassino e disposição militar para lutar. mas o nosso querido protagonista Senō luta contra esse instinto, vendendo sua querida espada, adotando uma lâmina de bambu e levando uma vida de professor para crianças.
li que o Taiyo Matsumoto, responsável pela arte, era contrário à ideia de glorificar o período feudal japonês com seus guerreiros e lâminas, optando por um olhar mais voltado à vida, em como esse mundo era uma grandessíssima merda. daí que ele topou o projeto porque Issei Eifuku queria contar o causo focando mais na sociedade, na realidade e nas dificuldades enfrentadas pelo povo, e menos no aspecto violento. baita combinação de palavra e imagem dos dois.
vale mencionar pra quem está lendo isso e é entusiasta de imagens animadas que o Taiyo Matsumoto é a mente insana por trás da maior estória de esporte já contada (depois de Rocky Balboa): Ping Pong. é fascinante virar a página e se surpreender com as pinturas que ele nos entrega. gosto, especialmente, de como ele ilustra o olho do personagem, mesmo que a perspectiva escolhida não seja condizente com a representação:
japanese death poems
esse aqui é um livrinho que eu sempre via quando ia à Barnes & Noble nos EUA quando ainda vivia aquela vida bandida. acabei comprando pro kindle porque não queria carregar muito peso físico e ele é um livrinho de 300 e poucas páginas mas bem gordinho.
enfim, o livro começa com uma explicação histórica do surgimento do haikai, de sua função social, quem eram as pessoas que o faziam, em quais situações, como isso era passado na corte nipônica. também menciona a influência da poesia chinesa, que redimensionou a forma e os temas tratados no haikai, especialmente com o zen budismo se tornando uma força motriz e base moral para a sociedade japonesa.
por fim, tem uma seleção extensa de poemas escritos por monges budistas antes de suas mortes. alguns se quer escreveram pensando que eram o seu poema do adeus. foi só a última rima que se teve notícia. muito me fascina que a boa maioria deles não apenas pressentia que era chegada a hora da morte, como também partiam deste plano assim que concluíam o haikai. muito bonito. queria eu ter essa lucidez, esse controle de poder sentir que meu suspiro final está se aproximando e então, com cuidado e atenção, cravar na folha meu pensamento final, a condensação de toda a minha vida em três linhas. sublime.
places, strange and quiet
quando tava morando nos EUA e tinha acesso a algumas coisas com mais facilidade comprei esse livro de fotografia do Win Wenders que, inclusive, é assinado pelo próprio. isso não muda em nada a leitura, mas é legal falar “tenho um livro do Wenders assinado” (nunca falei isso a ninguém, também).
é bem simples, com o material editorial tendo páginas que se desdobram em algumas fotografias pra que você possa contemplar a beleza dos registros feitos pelo alemão. junto a isso, tem alguns pensamentos, versos nascidos a partir dos sentimentos gerados conforme ele esperava pelo momento certo de clicar sua câmera (provavelmente uma leica já que ele era um dos garotos propaganda da marca). é bem bonito e é daqueles livros de centro de mesa que você mostraria às visitas pra mostrar que é sensível, que tem senso estético. gostei muito das últimas duas ou três fotografias serem dos Gêmeos em SP. Brazil mentioned.
pulp
gosto muito do véio. o deboche, a crueza, as frases diretas e sem rodeio. a simplicidade e até brutalidade, seja verbal seja da realidade das pessoas. esse mês li um do Miller e eu gosto de pensar que ele e o véio existem num mesmo espectro de retrato da realidade que a gente não gosta muito de tomar consciência. ao passo que o primeiro acaba indo pra um viés mais filosófico e até existencial, no véio isso adquire um tom melancólico, de incapacidade de ser outra coisa além daquilo que se é. as forças externas são poderosas demais e os vícios e as fraquezas que temos acabam nos derrubando.
por muito tempo preferi os contos e as novelas, por não saber muito bem como lidar com poesia. aquele meme de ter medo de jazz pela falta de estrutura, pela liberdade etc etc era algo similar ao que eu sentia com poesia (mesmo as mais estruturadas e formais) - embora hoje eu perceba que tem mais a ver com o uso da palavra e seu ritmo e seu som e seus significados, algo que ainda me escapam e me deixam confuso, mas que consigo apreciar com algum momento. quando ainda cursava História tinha um amigo das letras que era considerado por todos um pequeno gênio e que havia me falado pra dar uma chance à poesia do Bukowski porque havia mais ali do que na prosa. lembro de me envolver um pouco com ela, a ponto do poema for jane ter se tornado um dos meus favoritos e eu declamá-lo a mim mesmo de tempos em tempos, saboreando as palavras e as imagens conjuradas no texto.
pulp foi o último livro do véio antes dele vir a falecer por leucemia. ele queria viver até a virada do século, mas a morte tinha outros planos. morte essa que no livro se torna uma personagem, Lady Death, com quem ele começa flertando e que depois se vê incapaz de manter longe, sempre à espreita, a uma ligação, um encontro no bar. dedicado à baixa literatura (e isso é apresentado logo na abertura do livro), a estória gira em torno de Nicky Belane, um detetive particular gordo, velho, bruto, meio burro, decadente, mas que se considera o maior do ramo. não mais Henry Chinaski como em Misto Quente e demais novelas e contos, aqui temos um personagem com todos os tropes do gênero pulp, assombrado pelos clientes, pelas mulheres, pela busca do Pardal Vermelho, encontrando um Celine que supostamente deveria estar morto e que vira porta voz para falar da literatura dos seus pares.
mais do que a vulgaridade e escárnio, o que mais gosto do véio é o humor. a brincadeira com a língua e com a coloquialidade de um homem das ruas que acaba por lidar com gente da pior espécie. aqui isso é usado à exaustão no caso de Jack Bass, um homem desesperado que vai até o nosso detetive porque suspeita que sua mulher está pulando a cerca. Nicky não bota muita fé no caso até ver a foto da tal esposa, o que causa grande rebuliço na virilha do protagonista. conforme a estória avança e o marido corno vai pedindo atualizações, Nicky sempre diz que está perto de fechar o caso, que tá quente na cola dela, que i’m ready to nail her ass. é bobajada sem fim. o marido não entende o linguajar, não entende porque ele fala assim, porque é tão mal educado e Bukowski, com seu estilo de sempre, usa disso pra mostrar como somos incapazes nos entender, como nossa comunicação é sempre permeada por ruídos, sejam eles das nossas origens sociais, sejam eles dos nossos desejos.
eu gostaria imensamente de adaptar esse livro e o Velho e o Mar quando estivesse nos meus 60, 66 anos.
homens ao sol
eu, minha esposa e umas amigas temos um clube do livro de literatura asiática. e como esperado no ano passado lemos em sua maioria obras sul-coreanas e japonesas. e também aquele do Ocean Vuong, que não consegui avançar mais do que 10 páginas e que elas detestaram. dai que esse ano tentamos expandir mais o que seria literatura asiática e fomos parar nesse, que é da Palestina.
sempre li que No Longer Human do Ozamu Dazai era um livro pesado, desconfortável, pessimista and so on and so on. mas senti que ele é uma brisa de sábado perto desse. talvez pelo tema, pelo peso do relato que se apresenta aqui.
escrito por Ghassan Kanafani, autor palestino militante e que também foi expulso de sua terra pelos zionistas, o livro conta a história de quatro homens: Abu Qais, Assad, Marwan e Abul Khaizuran (chamado de Varapau) que se conhecem na tentativa de fugir em direção ao Kuwait para uma vida melhor. Abu Qais é um homem já velho, frágil, que vivia ouvindo que deveria ter fugido antes, que deveria tentar ir embora porque isso era melhor do que morrer sonhando com a ideia duma vida melhor. Assad é homem já maduro, mas não tanto quanto Abu, recebendo uma quantia guardada há anos do tio para que fosse embora, se estabelecesse e depois casasse com a prima, que não deveria morrer solteira e virgem. Marwan é o jovem que vai embora porque quer ajudar a família, já que seu irmão que tomou a mesma rota pro país distante sumiu e não dá mais notícias, abandonando de vez os pais e o irmão. Abul é o contrabandista, ex-combatente do exército que depois de sofrer por uma guerra que não lhe serviu de nada, encontrou no contrabando a forma de fazer fortuna e, se der certo, ajudar uma ou outra pessoa a tentar uma vida melhor.
o livro é curto, 85 páginas só, mas não poupa esforços para retratar a crueldade da terra arrasada pós-Nabka em 1948. cada um carrega sua sina, suas dores, suas frustrações e, em certo nível, a sua castração, seja ela sexual, mental ou política. não há nenhum exagero, o livro é narrado de forma simples. Ghassan, o autor, não enfatiza ou aumenta nada porque os acontecimentos e suas dores são o suficiente pra te causar desconforto, revolta, tristeza. tudo aqui dói demais. ta aí uma recomendação de leitura interessante ao Neil Druckmann.
são bernardo
pra fechar o mês, li São bernardo do Graciliano Ramos. ano passado reli Vidas Secas depois de … quinze ou dezesseis anos, não lembro bem. e depois vi o filme de 63 do Nelson Pereira. atormentado com os momentos de Baleia ainda hoje, mais uma vez.
não sei muito o que falar desse além de que é divertido duma forma irônica não babaca. conta a estória do seu Paulo Honório, homem dos campos, do arado, da terra, da fazenda e do plantio, que faz riqueza como todo mundo faz riqueza, escancarando a fraudulência da vida burguesa, da opressão dos homens endinheirados do campo sobre a gente simples e sem palavras - algo que é elevado no Fabiano em Vidas Secas. também foi uma boa oportunidade de aprender umas palavras novas, que na versão do kindle que li tavam todas explicadas em nota de rodapé. bonitinho até. num geral ele é divertido e deve fazer um sucesso no segundo ano do ensino médio nas aulas de literatura.
enfim, li isso ai em janeiro. divertido, mas queria ter adicionado outros. comecei a ler os Irmãos Karamazov e eu me peguei rindo ao concordar com o Nabokov de que o Dostoyevski é um brincalhão e comediante. gosto muito de homens engraçados.
falei dos filmes que queria reduzir, mas acabei interagindo com alguns. comecei a filmografia do Yasujiro Ozu pra poder ler um livro que tenho sobre ele. também gostei muito de DEAD HEAT, um negócio meio filme b, filme trash, filme de policial, filme de dudes being dudes. absurdo, espalhafatoso e com efeitos radicais. recomendo. também revi THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALENCE e é simplesmente uma prova de que o cinema é um negócio insano. Jimmy Stewart nunca esteve tão sedutor, selvagem e transgressor em tela. o Oeste brilha na sua fivela de advogado corrompido. e por falar em fivela, teve também WHITE MANE, filme ideal para ver no ano do cavalo ao lado de EQUUS que pretendo rever em algum momento. e ai por fim teve um com o miserável Johnny Depp chamado THE PROFESSOR que na minha incrível bela e cativante resenha do letterboxd eu escrevi
banger.
substack avisou que tá dando o limite do e-mail e eu não tenho mais nada a dizer. obrigado a quem leu.










Tava com saudade de te ler! Escreva sempre, mesmo que não saiba aonde as palavras vão parar, porque você, mesmo sem admitir, é um timoneiro hábil e sempre consegue conduzi-las por aventuras muito deleitosas de se acompanhar ❤️🌻