vô
alguém uma vez disse que o céu pra onde os mortos vão é a nossa memória.
dia 26 de janeiro completa cinco meses desde que meu avô se foi. um fato que, às vezes, parece não ser real. e ai a ausência e o silêncio vêm com tudo e sou obrigado a encarar a falta que ele faz.
o carro que não entra mais na garagem. o cheiro do cigarro que não permeia mais a casa toda. a piada e a pegação no pé que não acontece mais. o comentário “esse filme é muito bom, nu!” seguido da cruzadinha de pernas e a coçadinha na testa. o “meu filho, você sabe o que é [coisa]? não? então vai aprender e me explica”. o pedido por um cafézinho e um pão. as histórias do passado sobre viagens, aventuras, negócios, momentos engraçados da família, momentos tristes, amizades. o convite “vamo ali, fí” e a tensão constante da direção de alto perigo. a insistência para que toda carne cozinhada na casa seja na banha de porco e feita na chapa que comprou. churrasco todo domingo.
tudo isso agora virou memória, lembrança do que passou, de quem esteve aqui e foi tão valioso a todos nós. ainda sentamos na mesa pra falar dele, da risada, do humor, dos comentários (bons e ruins), minha avó ainda chora quando o portão abre, quando acorda no meio da madrugada assustada pensando que ele está caindo da cama.
esse fim de semana precisei ir ao pronto socorro por uma infecção intestinal - problema bem próximo do que me levou a uma cirurgia ano passado. ao sentar na cadeira de espera com minha esposa, lembrei do dia 05 de agosto de 2024, quando tivemos de correr com meu avô ao hospital - estava há 10 dias sem conseguir defecar, além de outros sintomas. enquanto aguardávamos a chamada por ele, meu avô pegava na minha mão e falava “vamos embora daqui”. quando ele entrou pro quarto, pra se preparar pra cirurgia, ele pegava na minha mão e falava “vamos embora daqui, eu não vou aguentar isso aqui, eu não tenho que estar aqui”.
meu avô nunca mais tomou um banho de sol nem se secou no vento desde que entrou pro hospital.
no pronto socorro, pouco depois de nos sentarmos, olhei para minha esposa e repeti as palavras do meu avô: “vamos embora daqui, eu não quero estar aqui”. ela disse que, se eu realmente quisesse, iríamos embora. eu sabia que precisava ficar para receber o remédio correto. o tempo todo em que fiquei ali pensei nele e na falta que fazia, na dor de se ver incapaz de sair do confinamento do hospital, da cama.
meu avô sempre foi um homem forte, destemido, tempestuoso e até arrogante. não aceitava que fizessem as coisas pra ele. não reclamava de dor (ficou 21 dias internado, seus órgãos internos fracos e até mesmo destruídos). nenhum pio. o que ele fazia era apertar a mão de quem estivesse ali com ele. respirava e depois falava “vamos embora daqui”. ainda hoje falamos muito sobre isso, sobre como ele foi forte. doença nenhuma foi capaz de drenar a dignidade dele, mesmo em seu momento mais fraco.
tem dias que a falta tá ali, mas não se nota. a gente leva a vida e o dia como se fosse só mais um. e tem dia, como tem sido todos os dessa semana, que me pego pensando que não existe o “dia seguinte”. não existe o “vai passar”, não vai diminuir. não vai normalizar chegar na casa e não ter ele sentando no sofá enquanto diz “ah, fidaégua, lembrou que tem avô, né”.
as lembranças se embaralham na memória, junto às histórias que ele contava - algumas verdade, algumas inventadas, outras aumentadas e tantas outras histórias de pescador. uma lembrança, no entanto, não se mistura: uma mensagem que ele me mandou pouco depois que me mudei pros EUA e estava há alguns dias sem dar sinal. no whatsapp, ele escreveu: “vou te dar com uma pedra na cabeça pra você sentir o quanto dói a saudade”. dói mesmo.
p.s.: enquanto escrevia essa aqui veio a notícia de que o Lynch faleceu hoje mesmo. curiosamente, a outra vez em que escrevi sobre meu avô eu também escrevi sobre o Lynch. a fumaça do cigarro realmente nos conecta.



Tudo isso dói… essa saudade dói… mas a beleza de tudo que vivemos juntos ameniza e nos remete a um amor lindo. Amo você!
Esse texto ficou lindíssimo, e a playlist e as fotos são um complemento maravilhoso. O vô é eterno em você. No seu senso de humor, nas suas sacadas espirituosas, no seu gosto musical, no seu apreço por puxar uma prosa despretensiosa, no talento como contador de histórias, no carisma, no jeito generoso de cuidar. Ele cuida de você lá de cima enquanto se faz presente aqui na Terra em tudo o que te ensinou. Isso ninguém nunca vai te tirar. Te amo infinitamente e tô aqui por você e pra você pra sempre. Mais que ontem e menos que amanhã